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A paridade favorece tanto meninos quanto meninas, afirma estudo do HCPA/UFRGS em colaboração com a Universidade Federal de Pelotas e com a PUC/Santiago - Chile.

 

Um estudo realizado por pesquisadores do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) comprovou que famílias com maior igualdade entre homens e mulheres têm filhos com melhor qualidade de vida, maiores níveis de escolaridade e menor risco de depressão, em ambos os sexos. A pesquisa Desigualdade de gênero parental e os anos de escolaridade, a qualidade de vida e a saúde mental dos filhos: uma análise da coorte de nascidos em Pelotas em 1993, no Brasil foi realizada com 2.852 participantes (1.446 mulheres) da famosa coorte de nascimentos de  Pelotas/RS do ano de 1993. Eles foram acompanhados até os 18 anos. 

Um desafio reconhecido na área é que os métodos para quantificar os efeitos da desigualdade de gênero na saúde ainda são pouco desenvolvidos. Por isso, os pesquisadores adaptaram o Índice de Gini, usado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para avaliar a desigualdade entre os países, com o objetivo de quantificar as assimetrias dentro das famílias. O objetivo foi elucidar como a desigualdade de gênero entre os pais poderia ter consequências duradouras para os filhos. Com isto foi criado o Índice de Desigualdade de Gênero do Casal (IDGC), abrangendo três dimensões: educação, renda e autonomia reprodutiva da mãe. Utiliza informações sobre a saúde materna (cuidados perinatais e gravidez na adolescência da mãe), a escolaridade dos pais (nível educacional da mãe em comparação com o do pai) e a participação no mercado de trabalho (comparação dos rendimentos individuais de ambos os pais). Saúde reprodutiva precária, nível educacional mais baixo e rendimentos mais baixos ou inexistentes refletiram em maior desigualdade de gênero e resultaram em um valor de IDGC mais baixo. 

Aos 18 anos, jovens que cresceram em lares mais igualitários apresentaram: 1,5 anos a mais de escolaridade, melhor qualidade de vida (cerca de 10 pontos a mais na escala da OMS) e 36% de risco menor de depressão. Estes resultados se aplicam tanto para as meninas, quanto para os meninos. Para a psiquiatra e pesquisadora do HCPA, Clarissa Severino Gama, famílias mais igualitárias não ajudam apenas as mulheres, mas toda a próxima geração: “Quando falamos de igualdade de gênero aqui neste estudo, não estamos falando apenas de justiça social, mas também de educação, saúde mental e do futuro das crianças”, conclui. 

Da amostra analisada, 62,9% dos casais tinham o mesmo nível de escolaridade ou as mães tinham mais anos de estudo do que os pais. Em contrapartida, apenas 4,9% tinham níveis de renda iguais ou as mães ganhavam mais do que os pais. A maioria (69,7%) das mulheres teve filhos com mais de 20 anos e realizaram mais de oito consultas pré-natais. 

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Conclusões:

  • A média de anos de escolaridade do grupo pesquisado foi de 8,9, com 4,9% da amostra atingindo o máximo de 12 anos e 3,7% com 4 anos ou menos. O IDGC apresentou associação positiva com um aumento no número de anos de escolaridade, ou seja, famílias com menor desigualdade propiciaram, em média, 1,5 anos a mais de estudo para os filhos;  
  • Crianças de casais mais equilibrados relataram melhor qualidade de vida do que aquelas onde a disparidade é maior, cerca de 10 pontos a mais na escala da OMS. A qualidade de vida foi avaliada por meio do WHOQOL (World Health Organization Quality of Life), questionário com 26 perguntas usado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que avalia a percepção individual sobre saúde, objetivos, valores e padrões;
  • Aos 18 anos, 5,9% dos participantes preencheram os critérios para transtorno depressivo, de acordo com padrões internacionais da Psiquiatria. Os filhos de casais mais igualitários tiveram 36% menos depressão. Quanto menor o IDGC, maior a probabilidade de depressão.

O artigo com as conclusões do estudo, publicado na Cambridge Prism: Global Mental Health, tem autoria de Nicolas Crossley, Letícia Czepielewski, Ana MB Menezes, Fernando Wehrmeister e Clarissa Gama.