Iniciativa inédita do Hospital de Clínicas mostra que muitas também consomem álcool durante a gravidez
Exames de urina realizados em mulheres que chegam ao Centro Obstétrico (CO) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) revelam uma realidade preocupante: cerca de 8% das gestantes consumiram maconha ou cocaína nas semanas anteriores ao parto. É o que revelaram 913 exames, dentre quase 23 mil testes realizados de 2022 a 2025. Um outro tipo de testagem, através de questionário validado, mostrou também que o consumo de álcool, ainda que moderadamente, chegou a uma média de 10,8% das parturientes nos últimos dois anos.O HCPA é um dos únicos hospitais do país a adotar esse protocolo. Ele foi desenvolvido pelos Serviços de Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, Serviço Social e Psiquiatria de Adições, em conjunto com o Comitê de Bioética, para que o resultado do exame fosse utilizado para o melhor atendimento das gestantes e dos bebês.
O exame de urina indica se a gestante consumiu maconha até trinta dias antes da coleta. Já a testagem para cocaína mostra o uso nos dois ou três dias anteriores à internação. Apesar de não ser obrigatório, a taxa de adesão é de cerca de 95%. Há uma tendência de aumento na detecção de cocaína, ano a ano. Em 2022, 2,9% dos testes foram positivos. Em 2025, 4,5% (veja mais números abaixo). A média de consumo de maconha ficou em cerca de 4% neste mesmo período.
O Centro Obstétrico do hospital realiza cerca de 250 partos por mês. A chefe do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do HCPA, Maria Lucia Oppermann, afirma que algumas grávidas acreditam que a maconha causaria menos prejuízo que o cigarro. “Outras vêm de comunidades em que o uso faz parte da prática social. Há também as que convivem com maridos usuários, e por fim há aquelas que escondem o uso da família", conta.
A iniciativa de realizar os testes uniu vários Serviços do HCPA. A primeira motivação foi evitar que os bebês fossem investigados desnecessariamente por sintomas que eram ocasionados pelo uso de substâncias da mãe. Além disso, prevenir crises de abstinência das mães, a maioria jovens e de baixa renda, durante a internação. Muitas negam o uso de entorpecentes na consulta inicial, o que reforça a necessidade da testagem. “O ideal é que a identificação do uso de substâncias seja realizada durante o pré-natal, como preconizam a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde. Entretanto, na maioria das vezes isso não acontece, até porque muitas nem fizeram acompanhamento durante a gestação”, afirma a coordenadora de Saúde Mental do HCPA, Lisia von Diemen. Outra razão é aproveitar a janela de oportunidade que se abre quando a mãe tem um filho, para motivá-la a aderir ao tratamento e cessar o uso de drogas. “A intenção é auxiliar as mães a entender o problema e estimular o tratamento precoce, visando o bem estar e a saúde de toda a família”, ressalta o professor do Serviço de Neonatologia Leandro Meirelles Nunes. Para ele, os dados são alarmantes, e devem ser considerados um problema de saúde pública.
Consequências para os recém nascidos
A cocaína pode adiantar o parto e provocar baixo peso ao nascer. Estudos também sugerem aumento do risco de aborto espontâneo, descolamento prematuro da placenta e diminuição do comprimento e da circunferência cefálica da criança no nascimento. Na mãe, há o risco de pré-eclâmpsia. Já o uso da maconha na gravidez e durante a lactação tem sido associado ao aumento da morbidade e mortalidade materna e infantil. Também aumentam as chances de recém-nascidos pequenos para a idade gestacional, parto prematuro, baixo peso ao nascer e morte no primeiro ano de vida.
As testagens ajudam a identificar mais rapidamente as reações físicas e emocionais no recém-nascido, causadas pela absorção da substância. Como passa pela placenta e permanece no organismo do bebê, filhos de usuárias de maconha podem ficar hipotônicos e, de tão pouco reativos, recusar o leite materno. Tremores, sono inquieto, choro sem consolo também são manifestações frequentes, que já chegaram a ser confundidas com sepse pelas equipes. Há casos de crianças que passaram por punções para detectar uma possível inflamação mas que, na verdade, estavam sofrendo com a abstinência. “O teste consegue evitar que o bebê seja manuseado e investigado sem necessidade”, afirma Maria Lúcia. “Em relação aos custos dos testes, um bebê que deixa de ir para a UTI porque o diagnóstico de uso de substâncias da mãe foi feito paga o custo dos testes de vários meses", acrescenta Lísia.
A cocaína ainda pode prejudicar a irrigação do intestino da criança, causando perfuração intestinal. Quando o uso da droga é detectado, a gestante é avaliada e segue em acompanhamento pelas equipes do Serviço Social e do Serviço de Psiquiatria de Adições, que pode recomendar o prolongamento da internação ou o uso de medicamentos para evitar as crises de abstinência - cerca de 40% delas são medicadas. Outra providência é suspender a amamentação na chamada golden hour, a primeira hora de vida do bebê, para evitar que o recém-nascido se alimente com a substância que vem no leite materno. “A amamentação é um direito da criança, mas não é recomendada quando a mãe é usuária de drogas”, explica Leandro. As que estão em acompanhamento na UBS Santa Cecília são encaminhadas para o sistema de gerenciamento do município. Também são feitos contatos com o Conselho Tutelar em casos selecionados, quando há outros riscos identificados para a criança.
Os prejuízos à saúde do recém-nascido se estendem para outras fases da vida. A longo prazo, a criança pode apresentar déficit cognitivo, distúrbios psiquiátricos e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Confira mais dados:
Uso de cocaína por gestantes no Centro Obstétrico
|
Ano |
Testes realizados |
Positivos |
% |
|
2022 |
2849 |
84 |
2,9 |
|
2023 |
2865 |
98 |
3,4 |
|
2024 |
3008 |
131 |
4,3 |
|
2025 |
2754 |
124 |
4,5 |
Uso de maconha por gestantes no Centro Obstétrico
|
Ano |
Testes realizados |
Positivos |
% |
|
2022 |
2839 |
111 |
3,9 |
|
2023 |
2865 |
117 |
4 |
|
2024 |
3008 |
136 |
4,5 |
|
2025 |
2754 |
112 |
4 |
Uso de álcool também preocupa
Um questionário aplicado às futuras mães também revela que 10,4% delas apresentam comportamentos de risco em relação ao uso de bebida alcoólica. O Teste de Identificação de Transtornos por Uso de Álcool (AUDIT-C), protocolo estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), avalia a frequência semanal do consumo, o número de doses consumidas e em quantas ocasiões esse consumo ultrapassou seis doses. Em uma escala de 0 a 12, entre as que admitiram o uso o escore ficou entre 1 e 3 - quando deveria ser zero, já que gestantes não devem consumir álcool. Resultados acima de 3 já presumem um certo risco, mesmo para quem não está gerando um filho. O uso mais intenso pode ocasionar a síndrome alcoólica fetal, produzindo alterações nas feições do bebê ao nascer: olho mais amendoado, com o sulco nasolabial menos desenvolvido. Ao crescer, aumenta o risco da criança apresentar atraso no desenvolvimento mental.
Os especialistas defendem a criação de uma política pública que possa acompanhar essas mulheres no pós-parto. “A maioria diz que vai parar, mas a gente não tem certeza. Por isso é importante a criação de uma política pública voltada para esses casos”, conta Maria Lúcia. Lisia sugere que os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) criem atendimentos voltados ao tratamento dessas mulheres. “O atendimento precisa ser diferente, separado dos demais pacientes com transtorno por uso de substâncias. “Muitas pacientes não procuram ou não aderem ao tratamento por medo do estigma associado ao uso de substâncias por mulheres, em particular na gestação e puerpério”, complementa.
Teste Audit em gestantes internadas
|
Ano |
Testes a |
1< x <3 b |
4< x <7 c |
8<x <12 d |
Consumiram e (b+ c+d) |
% de consumo e |
Não consumiram a - e |
|
2024 |
2830 |
343 |
19 |
2 |
364 |
12,8% |
2466 |
|
2025 |
2856 |
230 |
22 |
0 |
252 |
8,8% |
2604 |
|
Total |
5686 |
573 |
41 |
2 |
616 |
10,8% |
5070 |


















