Pesquisa experimental já recebeu aprovação do FDA para ser testada em centros norte-americanos
Uma pequena estrutura de plástico, em formato de cone, pode representar uma nova esperança para pacientes que sofrem de enfisema pulmonar e outras doenças respiratórias graves. Trata-se do Brônquio Artificial Implantável (BAI), um dispositivo inovador desenvolvido para restaurar vias aéreas comprometidas, facilitando a liberação do ar retido nos pulmões e melhorando a respiração.
O tratamento, conduzido em caráter experimental pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), é o primeiro do mundo deste tipo a ser aplicado em seres humanos. Após resultados promissores em 20 pacientes na primeira fase do estudo, a pesquisa recebeu aprovação de centros de referência da Europa e dos Estados Unidos. O hospital também tem recebido especialistas internacionais, especialmente da França e dos EUA, interessados em conhecer a técnica.

Amanda Reis Guimarães, pneumologista
Uma nova abordagem para o enfisema grave
O Brônquio Artificial Implantável foi desenvolvido por uma empresa norte-americana e teve seus testes pré-clínicos realizados no HCPA. Em 2022, tiveram início os implantes em seres humanos, no próprio Hospital de Clínicas de Porto Alegre e em centros de pesquisa na Alemanha (Heidelberg) e na Holanda (Groningen).
O dispositivo é um stent autoexpansível, com cerca de cinco centímetros de comprimento, fabricado em polieteretercetona (PEEK) — um material plástico biocompatível já utilizado em aplicações médicas. A implantação é realizada por broncoscopia, procedimento minimamente invasivo em que um tubo fino com câmera é introduzido pelas vias aéreas. O BAI pode ser implantado em um ou ambos os pulmões, e o paciente costuma receber alta hospitalar no dia seguinte.
Indicado para casos de enfisema pulmonar grave - doença crônica, progressiva e sem cura, geralmente associada ao tabagismo - , o dispositivo atua sobre um dos principais mecanismos da enfermidade. No enfisema, a destruição dos alvéolos leva à formação de grandes bolhas de ar, que ficam retidas nos pulmões, causando hiperinsuflação, dificuldade respiratória e limitação funcional progressiva. O BAI restabelece a via de escape para o ar, permitindo que o pulmão desinfle e que a troca gasosa seja parcialmente restaurada.

Stent é colocado por broncoscopia
Resultados iniciais e próximos passos
A primeira fase do ensaio clínico envolveu 20 pacientes com enfisema grave. A maioria apresentou melhora clínica significativa. Em cinco pacientes, ocorreram eventos relacionados ao implante, com necessidade de retirada do dispositivo, mas sem complicações graves. Os demais 15 seguiram em acompanhamento até o final da avaliação.
Após 90 dias, os exames confirmaram a segurança do dispositivo. O primeiro paciente tratado completou três anos de acompanhamento em agosto de 2025, reforçando a perspectiva de benefício sustentado. Os resultados dessa fase foram publicados recentemente na revista científica internacional Respiration.
Segundo o pneumologista e responsável pelo estudo no HCPA, professor Hugo Goulart de Oliveira, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, já autorizou a continuidade da pesquisa para a segunda fase. Nessa etapa, o estudo será ampliado para 68 pacientes, envolvendo oito novos centros norte-americanos, além dos centros europeus já participantes. “O brônquio artificial implantável pode representar uma grande esperança para milhões de pessoas que convivem com o sofrimento do enfisema avançado. Trata-se de uma alternativa especialmente relevante para pacientes que não são candidatos ao implante de válvulas endobrônquicas — atualmente a única opção endoscópica aprovada — ou que não podem se submeter à cirurgia de redução de volume pulmonar”, explica o pesquisador.


















