Pouca massa muscular aumenta em três vezes as chances de morte ou internação prolongada, conforme estudo do Clínicas
Medir a circunferência do braço (CB) no momento da hospitalização pode ajudar as equipes de saúde a predizer a evolução dos pacientes oncológicos. É o que revela um estudo realizado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), que avaliou mais de 600 pacientes com câncer ao longo de seis anos. Quanto menor a medida, maiores as chances de mortalidade ou tempo de internação. “É uma ferramenta simples, rápida, de baixo custo e facilmente aplicável na prática clínica. Além de auxiliar na avaliação do estado nutricional, permite estimar a massa muscular de pacientes oncológicos hospitalizados", explica a pesquisadora e nutricionista do HCPA Larissa Farinha Maffini.
Os métodos de referência usados atualmente para calcular a massa muscular são os exames de bioimpedância ou de imagem, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética, muito mais caros e complexos. Em contrapartida, a circunferência do braço pode ser aferida em poucos minutos, à beira do leito, utilizando apenas uma fita métrica.
O estudo- foram avaliados 618 pacientes adultos hospitalizados com câncer, entre 2019 e 2025. Os parâmetros ideais considerados para o estudo foram de pelo menos 25 centímetros de circunferência do braço para as mulheres e 28 centímetros para os homens. As circunferências baixas foram detectadas em 43,2% dos pacientes. Metade deste grupo permaneceu mais de oito dias internado, 8,6% vieram a óbito durante a hospitalização e 18,1%, em três meses.

Pesquisadora demonstra como é a coleta da medida. Foto: Angélica Coronel/HCPA
A massa muscular é a primeira a ser consumida pelo processo inflamatório causado pelo câncer, muitas vezes antes da redução da gordura corporal. Essa perda compromete a resposta ao tratamento, interfere na distribuição dos medicamentos, dificulta a cicatrização, reduz a imunidade e favorece a perda de força e independência durante a internação.
A pesquisadora afirma que, quando identificada baixa massa muscular, é importante reavaliar e reajustar o manejo clínico do paciente. "Como nutricionistas, podemos adaptar a alimentação, aumentando a oferta de calorias e proteínas quando necessário. Também podemos conversar com o fisioterapeuta para reforçar os exercícios voltados ao fortalecimento muscular. Quando cada profissional faz sua parte, o paciente tem mais chances de manter sua força, recuperar a funcionalidade e enfrentar melhor o tratamento", exemplifica.
Correção pelo IMC- os autores do estudo também ressaltam a importância de ajustar a medida da circunferência do braço de acordo com o Índice de Massa Corporal (IMC), principalmente nos casos de sobrepeso ou obesidade. Conforme o estudo, muitos pacientes com excesso de peso apresentavam baixa massa muscular, que não tinha sido detectada pela avaliação convencional. Entre pacientes com IMC entre 30 e 39,9 kg/m², por exemplo, apenas 1% apresentava baixa massa muscular pela avaliação convencional da circunferência do braço. Após o ajuste, essa prevalência aumentou para 33%. "São pacientes que, num primeiro momento, não seriam identificados, pois a adiposidade pode mascarar a baixa massa muscular", afirma Larissa.
Novas medidas no HCPA- a prática de medir a circunferência do braço já é realidade em áreas do Hospital de Clínicas, como os ambulatórios e a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Estudos anteriores dessa linha de pesquisa já demonstraram que a circunferência da panturrilha também é capaz de predizer internações prolongadas e mortalidade em pacientes hospitalizados.
O estudo foi publicado em artigo na revista Nutrition.