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Entre o medo e a coragem, mulheres sobrevivem à violência de seus companheiros. É o caso da técnica de enfermagem do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) Márcia Andréa da Silva, que trouxe seu relato de violência doméstica e tentativa de feminicídio para a mesa-redonda promovida nesta terça-feira (23) na instituição. Ela iniciou a sua fala destacando que “a violência não se encerra quando a gente rompe o ciclo com o agressor, porque a gente vive todas as outras violências ainda. A gente vive uma violência estrutural e  social, porque as pessoas nos julgam, nos condenam e nos punem com suas palavras e ações”, contou.  

Márcia citou nominalmente as muitas áreas do Clínicas que a apoiaram e seguem apoiando desde 2014. “Quando o estado falhou, o Hospital de Clínicas cuidou e continua cuidando de mim”, disse, referindo-se às diversas instâncias do poder público que recorreu para garantir proteção e direitos. Para a técnica de enfermagem, o que prejudica o enfrentamento às situações de violência é a falta de conexão entre os órgãos governamentais e a falta de um de um olhar para o todo da vítima, a condição de cada uma. “Ninguém quer morrer nas mãos de quem diz te amar”, frisou.

O evento voltado a promover a reflexão e sensibilização do público interno, contou também com a participação da psiquiatra forense Lisieux de Borba Telles, professora do Departamento de Psiquiatria da UFRGS. Ela falou sobre o ciclo abusivo, os tipos de violência, o perfil dos agressores e os fatores de risco, como estar grávida, não ter suporte social e presenciar a violência na família na infância.    

Até esta data, o Rio Grande do Sul registrava 38 casos de feminicídio neste ano. Situações que geralmente não começam com a tentativa de homicídio, mas com comentários e mudanças de atitude que geram tensão e culminam no ato de violência. Lisieux reforçou o papel dos serviços de saúde no apoio às vítimas. A professora frisou o quanto esse deve ser um questionamento feito no atendimento de pacientes. “É necessária uma abordagem multissetorial, com fortalecimento institucional, mudança de normas culturais e compromisso político sustentado para garantir proteção efetiva às mulheres”, declarou.

A mesa-redonda foi intermediada pela assistente social do Clínicas Myriam Fonte Marques e faz parte da programação de atividades que têm sido organizadas pelo Comitê de Diversidade, Equidade e Inclusão, pelo Programa de Ações Antirracistas e pelo programa Cuidar Também de Quem Cuida Tão Bem. O diretor-presidente do HCPA, Brasil Silva Neto, destacou que a temática da violência contra a mulher foi eleita para ganhar destaque devido ao momento extremamente preocupante que vivemos com o aumento da ocorrência desses casos. “O hospital não vai tirar o pé do acelerador nessa agenda. Precisamos trazer mais homens para essa discussão, porque precisamos reconhecer que, na imensa maioria das vezes, são os homens os agentes da violência contra a mulher”, afirmou.