Início do Conteúdo

Dois estudos realizados pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) questionam a tendência atual de aumentar a ingestão de proteínas como forma de alimentação saudável e mais vigor ao praticar exercícios físicos. Os estudos mostraram que ingerir proteínas dentro de parâmetros recomendados, sem suplementação na dieta, pode ajudar a controlar o diabetes tipo 2 e a obesidade. E que as de origem vegetal são tão benéficas como as de origem animal para obtenção de um bom controle cardiometabólico e glicêmico. 

A primeira pesquisa foi feita pelo Serviço de Endocrinologia e Metabologia do HCPA. Durante 12 semanas os 56 participantes, divididos em dois grupos, adotaram uma dieta em que consumiam entre 1 e 1,5 grama de proteína por quilo de peso por dia. Para um dos grupos, ¾ da proteína consumida tinha origem vegetal e o restante, proteína animal; e no outro grupo, o contrário. Nos dois casos, as proteínas correspondiam a 20% do valor total da dieta, composta predominantemente por frutas, verduras, grãos integrais, nozes e castanhas, sementes e leguminosas. Mas, diferentemente da alimentação vegana ou vegetariana, a chamada dieta Plant-Based permite a inclusão de alimentos de origem animal, como carnes, peixes e laticínios.

O estudo vai na direção oposta da tendência atual de aumento do consumo de proteínas como forma de alimentação saudável. “Nas academias e redes sociais há orientações para aumentar a ingestão de proteínas para 1,5 a 2 gramas, o que é um completo absurdo, pois não estamos lidando com públicos de atletas de alta performance de uma maneira geral. Nem para pessoas com alta performance se recomenda essa quantidade em muitos casos", afirma o professor do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do HCPA Fernando Gerchman, que coordenou a pesquisa.

24-10-23_linha_verde_1.jpg

Linha Verde do HCPA serve refeição sem proteína animal. Foto: Clóvis Prates/HCPA

Os resultados mostraram que a dieta com ingestão normal, e que obedece às recomendações das diretrizes em relação ao consumo de proteína, melhorou o controle cardiometabólico dos pacientes. As análises de composição corporal também provaram que a proporção de massa magra não diminuiu. “É possível se alimentar dessa maneira e isso faz muito bem para a saúde do brasileiro”, complementa Gerchman. 

Finalizando, o impacto da dieta foi tão importante quanto o que se espera do efeito obtido no controle glicêmico de uma excelente medicação para o diabetes.

Sedentarismo, proteínas e veganismo- outro estudo, realizado pelo Serviço de Nutrição e Dietética do HCPA para avaliar o ganho de massa muscular em mulheres sedentárias que passaram a fazer exercícios físicos, também não apontou diferenças nos resultados, apesar da dieta.

Ele concluiu que lacto-ovo-vegetarianos e não vegetarianos apresentaram melhorias semelhantes na força máxima, massa muscular e composição corporal após 12 semanas de treinamento de força, apesar das grandes diferenças em relação à fonte e ingestão de proteína. Embora ainda haja lacunas no conhecimento sobre como diferentes fontes alimentares impactam as adaptações ao treinamento de força, os resultados mostraram que seguir uma dieta com baixo teor de proteína e ovo-vegetarianos não representa uma limitação para as adaptações iniciais ao treinamento de força em indivíduos previamente não treinados. Além disso, o consumo de carne e a ingestão de proteína acima do mínimo recomendado para indivíduos que praticam exercícios (1,2 g/kg/dia) não proporcionaram benefícios adicionais em comparação com uma dieta com baixo teor de proteína e ovo-vegetariana.

A pesquisa demonstrou que 16 semanas de treinamento de resistência, realizado duas vezes por semana, resultaram em aumentos significativos na massa muscular, força muscular e tecido magro total em mulheres jovens, saudáveis e previamente sedentárias, que seguiram uma dieta estritamente vegetariana ou não vegetariana. Essas adaptações não diferiram significativamente entre os grupos, apesar das diferenças na ingestão habitual de proteínas e da ausência de suplementação alimentar. 

No geral, esses achados indicam que as melhorias na força muscular e na hipertrofia induzidas pelo treinamento de resistência não são comprometidas pela exclusão de alimentos de origem animal quando a disponibilidade de carboidratos é adequada,  a ingestão de energia e o volume de treinamento são comparáveis, e a ingestão diária de proteínas atinge aproximadamente 1g/kg/dia.

25-9-26_refeitorio_linha_de_servir_6.jpgSuplementação com proteína animal não é necessária, dizem especialistas