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Estudo com seis milhões de pessoas mostra que chance de sofrer com cefaleia dobra se a pessoa teve experiências difíceis quando criança

As ​Experiências ​Adversas na ​Infância (EAI) são fatores de risco significativos para doenças médicas não mentais em adultos. É o que mostra uma ampla revisão de estudos, coordenada por pesquisadores da Espanha, Itália, Reino Unido, Alemanha e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), publicada recentemente em uma revista do grupo The Lancet, uma das mais prestigiadas publicações científicas mundiais.

A exposição a ​Experiências ​Adversas durante a ​Infância (EAI) afeta cerca de 60% da população adulta. Vários estudos mostraram evidências que ligam essas experiências a transtornos mentais. Porém, ainda não havia sido produzida uma revisão tão abrangente​, abordando a relação entre problemas de saúde física e vários tipos de traumas.

Traumas que tem relação com doenças não mentais

Abuso físico ou sexual
Bullying
Divórcio, separação ou morte de um dos pais
Dificuldades financeiras ou desemprego dos pais
Negligência emocional e física
Problemas de uso de substâncias em casa
Testemunhar qualquer forma de violência em casa
Ter um membro da família com doença mental ou
Ter um dos pais encarcerado

Os pesquisadores realizaram uma revisão guarda-chuva incluindo 36 meta-análises e revisões sistemáticas e mais de 250 estudos que haviam investigado a relação entre trauma e doenças físicas. Juntos, esses estudos envolveram 6 milhões de pessoas (412.760 casos analisados e 5 milhões 651 mil que fizeram parte dos chamados grupos de controle), todos avaliando experiências adversas na infância, como por exemplo, bullying, negligência emocional, abuso físico e abuso sexual.

Como resultado, foram encontradas evidências que associam as experiências adversas na infância a várias doenças. A associação mais forte foi com a cefaléia. Conforme o estudo, uma pessoa que sofreu algum tipo de trauma na infância tem quase duas vezes mais chances de sofrer de dor de cabeça na idade adulta. Para uma das autoras, a pesquisadora do Laboratório de Psiquiatria Molecular do Hospital de Clínicas e professora do Departamento de Farmacologia da UFRGS Adriane da Rosa, o estudo mostra que não existe saúde física sem saúde mental. “É preciso investigar aspectos mentais e psicológicos do paciente. No caso de uma dor de cabeça, nem sempre o analgésico vai ser suficiente. Ele pode precisar de outras abordagens terapêuticas, por exemplo”, afirma. Síndrome do intestino irritável, diabetes e doença cardiovascular também têm forte relação com as EAI. Em menor grau vem os distúrbios endócrinos e metabólicos.

Doenças que apresentaram relação com ​​Experiências ​Adversas durante a ​Infância (EAI)
Cefaleia
Câncer
Diabetes
Dismenorreia
Dor pélvica e genital
Doenças respiratórias
Doenças cardiovasculares
Doenças do aparelho genital feminino
Dor somática e outras.
Esclerose múltipla
Infecção do trato urinário
Obesidade
Síndrome do intestino irritável (SII)
Vírus da imunodeficiência humana (HIV)

Bullying e abusos- Entre os resultados, a ocorrência de abusos (físicos e sexuais) e bullying na infância se destaca como fator de risco para várias doenças na vida adulta. Esse tipo de trauma aumenta a morbidade médica geral. “O trauma modula de forma permanente a biologia e a saúde física do adulto, levando ao envelhecimento celular precoce”, afirma Adriane, que também ressalta a importância da intervenção e da prevenção precoces para grupos vulneráveis. “Abordar as consequências de longo prazo do trauma na infância por meio de estratégias preventivas é crucial para melhorar a saúde da população e reduzir a pressão sobre os sistemas de saúde. Essas descobertas apontam para a necessidade urgente de programas e políticas direcionadas que fortaleçam a colaboração entre os serviços de atenção primária e saúde mental, apoiados por financiamento adequado e uma abordagem abrangente e intersetorial”, acredita.

O mecanismo exato pelo qual as EAI´s podem impactar doenças físicas é pouco compreendido. Uma das hipóteses é que esses traumas podem afetar estilos de vida e hábitos pessoais, o que pode levar a comportamentos adversos à saúde — incluindo má alimentação, redução da atividade física, tabagismo e consumo excessivo de álcool. Rosa destaca que estudos futuros devem explorar como os fatores genéticos, ambientais e de resiliência podem agravar ou atenuar essa relação.

O estudo não considerou nem controlou variações culturais, problemas de saúde mental (transtornos afetivos, de ansiedade e depressivos) e fatores biológicos, que devem ser levados em conta na interpretação dos resultados.

Professora Adriane Rosa